quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
sábado, 23 de fevereiro de 2013
Meio século da morte de minha sogra.
Dona Nelza Cabral viveu sob o crivo da modernidade em uma
cidadezinha acanhada e preconceituosa da Paraíba por nome Itabaiana do Norte.
Lia muito e gostava de desenhar. Pintava quadros elogiados pelo Coronel Raul
Geraldo de Oliveira, mestre da pintura.
Faz meio século que dona Nelza morreu. Essa pessoa iluminada
pelo talento era, por assim, dizer, uma figura além do seu tempo. Uma estrela
brilhante a ofuscar os medíocres de sua cidadezinha.
Não conheci dona Nelza, minha sogra, mas soube que era uma
pessoa simples, sem aquele comportamento pequeno burguês um tanto ridículo,
próprio das elites interioranas. Seu marido ocupava importante cargo na
diretoria da maior empresa particular da cidade, era um homem refinado. Dona
Nelza vivia o mais discretamente possível. Não gostava dos bailes elitistas,
das ostentações vazias de uma sociedade ornamentada pelo falso brilho da
opulência. Apreciava o rio Paraíba, tinha por hábito tomar banho nos poços do
rio e desenhar. Desde criança. As coisas simples que ninguém via ou valorizava,
a poesia da vida oculta a fazia viver quieta, pelos cantos. Era quase uma
incompreendida, como todo artista.
O desenho acima representa a ponte ferroviária de Guarita
sobre o rio Paraíba, rabiscado em lápis grafite numa folha de caderno pautado
escolar. Foi um ensaio de dona Nelza quando mocinha, em um dos piqueniques que
se costumava fazer no rio naquela época. Pelos nossos cálculos, este desenho
tem mais de setenta anos. Uma relíquia guardada pela filha Geovana, que hoje
mora na Bahia.
Visitei esse recanto do rio, recentemente. Parece que
estancou no tempo, aquele sítio do lado esquerdo do Paraíba, outrora centro da
nossa indústria coureira, hoje extinta. A decadência econômica congelou o
distrito de Campo Grande. Casas velhas abandonadas, campos vazios, ruínas. Com
o vento que corre nas margens desertas do rio, sopram as lembranças daquela
juventude que fazia piquenique com o futuro maestro Sivuca, e no meio da
algazarra juvenil a frase altiva e o alvo riso da menina-moça Nelza, no
nascimento de suas invenções artísticas.
Fábio Mozart
Fábio Mozart
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Nelza Cabral (à esquerda, com rosa no cabelo) ao lado do menino Sivuca
em 1945, em piquenique
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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Zora, de sonhos e paixões.
Em Campo Grande da margem esquerda do Rio Paraíba(Pernambuquinho), Itabaiana, Paraíba, nasceu Maria do Socorro Lira, Zora.
O seu pai, José Maria Porfírio, conhecido como “Trobador”, era cantor
nas noites boêmias e sua mãe, Josefa Francelina de Lira, cuidava da casa e da
mercearia do casal.
Advogada, compositora, cantora e poeta, Zora Lira fez sua
primeira letra de música aos 12 anos de idade. Foi professora em Campo Grande e
funcionária da Prefeitura Municipal de Itabaiana.
No dia 07 de novembro de 1968, aniversário da morte do
ex-prefeito José Silveira, em comício do candidato Josué Dias de Oliveira,
realizado em frente à Casa da Mãe Pobre, Zora Lira cantou, pela primeira vez
para um grande público, uma música com letra sua, que enaltecia as virtudes do
prefeito morto, e que passou a ser conhecida como “O Sonho”. Na presença de Mário Silveira, Humberto Lucena,
políticos itabaianenses e mais de quatro mil pessoas, a toada gerou um
impacto muito forte entre os seguidores de Zé Silveira, causando choros e desmaios
e, segundo Zora, deu a vitória ao PMDB. Incomodados com o sucesso de “O Sonho”, os adversários ridicularizaram
a música e, na eleição seguinte, foi proibida a sua divulgação pelo TRE.
Sobre a polêmica de que a música “Feira de Mangaio”, de
Sivuca e Glorinha Gadelha, faz referência à feira do município de Sousa, na
Paraíba, afirma, Zora Lira, que seria uma grande coincidência que naquela
cidade do sertão outras “Zefa de Porcina” e “Maria do Juá” existissem. Zefa de
Porcina e Porcina eram, respectivamente, tia e bisavó da cantora campograndense
e Maria do Juá uma figura popular, todas filhas e moradoras de Campo Grande do
Mestre Sivuca.
Zora Lira pretende gravar um novo CD, desta vez de forró,
reeditar seu livro “Revelações” e publicar um novo livro de poesias com o título provisório de “Reflexos
da Alma”.
Associação Cultural Memória Viva
Associação Cultural Memória Viva
Zora, vejo em você um grande talento que os empresários não
descobriram ainda,
porém para tudo tem o tempo e poderá ser por ocasião do
lançamento do seu CD de forro.
Pedro José da Silva - Defensor Público.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
Itabaiana, terra de bamba
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Itabaiana do Norte é pródiga em mestres das mais variadas
artes. Temos um gênio sanfoneiro, outro destacado artista das artes visuais
reconhecido na Europa, o que é considerado responsável pelo moderno cinema
documentário, aquele que atravessou o oceano para beber na fonte da Mãe África,
o pós-doutor em teatro, formado nas melhores escolas cubanas e a ceramista cujo
trabalho atinge também as fronteiras do mundo. Exemplos não faltam da
genialidade do artista aqui nascido. A esses nomes consagrados, juntam-se os
artistas populares, alguns de projeção nacional, como o Ratinho da melhor dupla
sertaneja da história de nossa música, outros esquecidos, os que não alcançaram
visibilidade, nem por isso menos dotados de altíssimo grau de capacidade
criadora.
Fiz um mosaico desses criadores nas mais diversas áreas, com
breve biografia destinada a fortalecer nosso orgulho de sermos conterrâneos
dessas figuras e registrar para as gerações seguintes nosso rico acervo de
nomes de vulto, se não pela fama, mas pela sua importância na construção de
nossa identidade cultural. Artistas do teatro de bonecos, do canto de raiz,
virtuosos instrumentistas e compositores, escritores, atores, mágicos,
palhaços, poetas e mamulengueiros, ícones da cultura popular itabaianense de
todos os tempos, registrando breves dados biográficos com a proposta de
sistematizar, organizar e divulgar os artistas populares, poetas e intelectuais
que publicaram livros em Itabaiana, como um acervo facilitador da construção de
um sentido de pertença, cidadania e auto-estima de artistas da comunidade
itabaianense.
O livro “Artistas de Itabaiana” acaba de ter patrocínio
aprovado pelo Fundo de Incentivo à Cultura Augusto dos Anjos, da Secretaria de
Cultura do Estado, conforme publicado no Diário Oficial de ontem (13 de
fevereiro). Vai ser lançado em maio, durante o aniversário da cidade. É minha
contribuição à festa da emancipação política da terra do Mestre Mané Risadinha,
do mestre Mocó, do pifeiro Cachimbinho e de Galego Aboiador. Os artífices da
cultura popular itabaianense, que se fortalecem mesmo na adversidade, estão
expressos neste livro.
Para completar, o Ponto de Cultura Cantiga de Ninar também
aprovou projeto no FIC para realizar o “Cortejo de bois e caboclinhos”, onde
registraremos em vídeo documentário os brincantes em ação, tratados com o
respeito que merecem, livres da presença incômoda e violentadora de “paredões”
e outras parafernálias. O carnaval tradição, historicamente pouco abordado,
maltratado e humilhado, terá seu registro digno. É um ato de construção de uma
sociedade civilizada que respeita seu passado e suas legítimas expressões
artísticas. Se não acreditasse nisso, eu já teria renunciado, há muito, a lutar
pela preservação do Ponto de Cultura Cantiga de Ninar.
http://www.fabiomozart.blogspot.com.br/
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Biu do Vasco e do carnaval
Esse é o Biu do Vasco, desportista e carnavalesco de
Itabaiana, lendário sambista, mestre de bateria, figurinista e produtor da
Escola de Samba Imperadores do Ritmo. Esse rapaz já fez pelo carnaval e pelo
futebol da cidade muito mais do que muitos prefeitos. Cabe citá-lo com
reverência quando se trata de cultura popular na terra de Biu da Rabeca, lugar
de ótimos artistas e péssimos administradores.
Por ser pobre, é visto com desconfiança. Mas são fortes as
raízes do Biu na sua comunidade. Devido a isso, consegue juntar uns trocados,
pedindo no comércio, e bota sua escola de samba todos os anos na rua. Biu é
descendente direto de figuras como Dolfo e seu irmão Índio, patronos do futebol
e do carnaval, lutadores pelas nossas melhores tradições no esporte, fundadores
e mantenedores do glorioso União Sport Clube e da Escola de Samba.
A negligência do chamado poder público no fomento à criação
e acesso à cultura popular dá lugar a esses heróis da resistência. Sem pessoas
como Biu do Vasco e outros tantos abnegados, nosso carnaval de rua seria apenas
lembrança. Pela tenacidade de figuras
como o mestre Zé Leiteiro, já falecido, e outros mestres de bois, caboclinhos e
troças, os reais construtores do nosso carnaval, ainda temos um carnaval de rua
que se preza.
Tão importante quanto o trabalho de Biu no carnaval é seu
desempenho na preparação de novos atletas de futebol. Uma historinha: meu irmão
mais novo, Lavoisier, aos dezessete anos era a maior revelação juvenil do time
de Biu do Vasco. Ótimo meia-direita, recebeu convite de um empresário para
jogar no futebol da Suécia. Minha mãe não aprovou a carreira futebolística de
Lavoisier que acabou tornando-se pastor protestante. O futebol perdeu um craque
e a igreja ganhou um pregador. Ainda hoje Biu lembra de Lavoisier e seu
futebol, lamentando os muros que a fé de minha mãe ergueu entre o estrelato da
bola e seu antigo pupilo.
Postado por TOCA DO LEÃO em 05.02.2013
http://www.fabiomozart.blogspot.com.br/2013/02/biu-do-vasco-e-do-carnaval.html
Leonilla Almeida, personagem do livro "Memórias do Cárcere" de Graciliano Ramos
Leonilla Félix de Almeida, nascida no distrito de Campo
Grande, em Itabaiana, Paraíba, foi imortalizada pelo escritor alagoano
Graciliano Ramos, no seu livro Memórias do Cárcere, onde narra a prisão dela e
do seu esposo, Epifânio Guilhermino, confinados na Ilha Grande durante o Estado
Novo de Getúlio Vargas.
No cárcere, Leonila conviveu com outros homens e mulheres
partidários de avanços sociais, presos durante a chamada Intentona Comunista.
Ela esteve presa na mesma cela com Olga Benário, a mulher do
líder comunista Luiz Carlos Prestes, além de Elisa Berger, Cármem Ghioldi,
Maria Werneck e outros revolucionários.
Leonila Almeida saiu de Itabaiana para se tornar personagem
da literatura universal, com sua luta plena de entusiasmo pelos melhores ideais
de justiça e igualdade.
(Texto de Fábio Mozart publicado na revista Centenário de Zé
da Luz e na Enciclopédia Nordeste)
Postado por TOCA DO LEÃO
http://www.fabiomozart.blogspot.com.br/2013/02/leonilla-almeida-personagem-do-livro.html
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