sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Memória Viva recebe acervo de Abelardo Jurema


Registro com as fotos e documentos doados.



Visitou a Memória Viva-Memorial Itabaianense, na tarde do dia 09 deste mês,  o escritor e jornalista Abelardo Jurema Filho para doar parte do acervo do seu pai Abelardo Jurema.

Acompanhado da esposa Maria Lúcia, da irmã Nara  e de Ladjane Paschoal, Abelardinho doou fotos, documentos, cartas e publicações, rico material que conta a trajetória do ilustre filho de Itabaiana.

Na vida pública Abelardo Jurema  foi prefeito de Itabaiana e de João Pessoa, secretário do Interior e Justiça do Estado, senador, deputado federal e ministro da justiça.


Na memorável e descontraída tarde, o acervo foi recebido por Margaret Santiago Bandeira, presidente, e por Luciano Correia Marinho, criador, sócio fundador e colaborador da Memória Viva.

Abelardo e Nara mostram a foto do avô Manoel Germano de Araújo, primeiro prefeito de Itabaiana.

Na galeria dos prefeitos, Abelardo, Nara e Maria Lúcia com a foto de Abelardo Jurema .

sábado, 5 de agosto de 2017

As Craibeiras de Itabaiana


Aquelas duas craibeiras gigantes, da Praça Desembargador Heráclito Cavalcanti, em Itabaiana, que no mês de Dezembro se cobriam de flores côr de ouro e projetavam uma sombra acariciante e morna e em seus ramalhos os pássaros enamorados iam fazer os seus ninhos, caíram no chão aos golpes impiedosos do machado de um Prefeito desalmado, precisamente no mês de setembro quando se comemorava o Dia da Arvore.

Recordo-me que nos idos de 1915 quando residia em Itabaiana, aquelas duas craibeiras, agora abatidas cruelmente, já eram majestosas e davam Flores douradas. E cresciam para o Alto querendo tocar as estrelas com a sua majestade silenciosa. E escrevi uma crônica sob o título Arvore dourada, publicada no "Jornal", hebdomadário de propriedade do dr. Odilon Maroja, tecendo um hino panteísta àquelas árvores tão boas, onde se ia, debaixo de sua copa, conversar com as moças elegantes da época: Ducinha Batista, Olga Araújo, Araci Coutinho, Agripina Ferreira, Nenen Batista, Afrinha, Lindinha Henriques, Ducinha e Carminha Coélho, Lizete e Guiomar Rezende, Severina e Heloiza Almeida, que andavam bolindo com o coração dos rapazes. E era ainda, na magia da sua sombra, que se reuniam Batista Lins, Zuza Ferreira, Alcebiades Gonçalves, Aurélio Ferreira, Aquilidones Guimarães, Euclides Ferreira, João Florindo, Regis Velho, José Maria Menezes, Melquíades Montenegro, Severino Moura e outros, a juventude, dourada daquele tempo, recitando versos, discutindo política e literatura. Era debaixo da sua florada côr de ouro, ouvindo a voz dos segredos, que se realizava o encontro poético dos namorados. E as preferidas passavam, elegantes e sedutoras, atraindo os corações com a chama do seu olhar...

Gozando a frescura daquele sombreiro florido brincavam os alunos do Colégio de "Seu" Maciel, os meninos Olívio Maroja, Zé Lins do Rêgo, que naquele colégio era conhecido por Doidinho, Melquíades Montenegro, o latinista, e outros, que são hoje figuras de relêvo no mundo das letras do Brasil. E as meninas do Colégio de Dona Mariêta, como um bando de borboletas traquinas, folgavam também naquela sombra incendiada de luz ao pino do meio dia, como num refúgio confortador.

Quando o Prefeito anunciou a sua resolução, de derrubar aquelas duas árvores portentosas, plantadas há quase um século, quando Itabaiana era um pouso de boiadeiros para a feira de gado grosso, as matronas venerandas da cidade, dona Ritinha Coelho, dona Hosana Cordeiro e outras, zelosas da tradição e da beleza da sua terra, mandaram pedir ao Edil que não praticasse tão hediondo vandalismo.

E, diante desse gesto cheio de emoções e de um justo sentido ecológico, que fez o Prefeito? Teve um sorriso de mofa, e recebeu aquela mensagem com um ar maligno... E as árvores quase seculares, foram abatidas perversamente...

Que mal faziam aquelas árvores? ... Eram majestosas e Acolhedoras. Desapareceram para sempre da paisagem ambiental de Itabaiana, e com elas, a apoteose de suas flores cor de ouro, em dezembro. Se foram, como aquelas figuras antigas: Neco Germano, João Lins, Odilon Maroja, Antônio Coitinho, Augusto Coêlho, o Juiz Azevedo, o promotor Samuel, o velho Lucinho, Major Nenéu, Joca Paula, Seu Tonho Menezes, o Chico Soter, e tantos outros, que só ao lembrar-los se enche meu coração de saudade... Há apenas uma diferença dentro da realidade: enquanto aquelas figuras antigas que talvez tivessem visto as craibeiras nascerem, ou crescerem e darem flores e sombra, entraram na Eternidade serenamente, conduzindas pela mão da Morte, e aquelas árvores, coitadas, desapareceram aos golpes do machado, como criminosos abatidos por um carrasco. Os seus troncos, os seus galhos, os seus ramos foram servir de combustível, atirados à bosa das fornalhas pedindo lenha, das padarias da rua do carretel...

Na Índia, aos tempos dos vedas, as suas divindades mandavam decepar as mãos daqueles que criminosamente abatia uma árvore que dava frutos ou flores, sombra amena e aconchegante ou carinhosamente abria a sua copa para o ninho das aves...

O eminente Sr Pedro Gondim, Governador eleito da Paraíba, não deve se desaperceber de tão estúpida depredação...

                           Henrique de Figueiredo, Caruaru, Outubro de 1960.